Adriana Cláudia S Carmezim
Uma gota neste imenso mar chamado Terra. Uma árvore: de pés descalços na terra, olhos no horizonte e braços abertos ao céu.
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis
Nasci com vontade de fazer (e de ser) muitas coisas.
Muitas coisas diferentes. Tantas e tão diferentes e ao mesmo tempo, que me perdia facilmente em mim mesma e nos meandros e caminhos onde me metia. E dava voltas e voltas sem a serpente conseguir morder a cauda…
Precisava de fazer coisas com as duas mãos, produzir, experimentar. Meter as mãos na massa, literalmente. Não a alimentícia que também me apraz, mas o barro, a massa terra.
A Cerâmica provou isso mesmo, facilitou-me brevemente esse gosto e prazer. O denominador comum, sempre o Belo.
Como eu costumava intuitivamente dizer, muito antes de entender um pouco de astrologia, a minha fada madrinha é Vénus.
E Ela incitava e impelia-me a perseguir também a Harmonia, a Cor, a Textura, a Forma. E a conjugar tudo num todo quase perfeito, sempre sedutor, e em primeira instância, para mim mesma.
Naquele tempo, muito no meu começo, não sabia disso.
Dessa necessidade instintiva de criar*
Vim a descobri-lo muito mais tarde, depois de ter ingressado e deambulado pela área de saúde. Fiz o percurso escolar de Ciências a gostar muito de Biologia e de Psicologia, mas a detestar a ideia (bastante redutora na altura) de ‘acabar profissionalmente’ a ouvir pacientes fechada num gabinete entre quatro paredes.
Sempre precisei de espaços abertos, de natureza, além de rotinas diferentes.
*E este criar, fazer, vai desde o verde na terra,
ao verde na paleta ou na conjugação de espaços arquitetónicos ou paisagísticos. Desde que envolva sempre, contemple e premeie algumas das premissas anteriores. [Belo, Harmonia, Cor, Textura, Forma]
O silêncio contemplativo, a quietude do olhar demorado, a paz inalterada e (in)transmissível, o diálogo secreto interior, o toque de descoberta e apropriação do real, fazem parte para mim, de todo o fruir de quem cria e de quem possa ver e sentir o objeto criado.
A Arte, nas suas variadas e ricas vertentes e expressões, permitiu-me satisfazer os meus mais profundos requisitos e necessidades. E , Ser Eu.
Testemunhos





